Um dos livros mais famosos escritos por Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”, foi escrito em 1968 mas somente publicado em torno de 1977. Freire é um educador e filósofo brasileiro, conhecido e respeitado ao redor do mundo. Neste livro, ele critica nosso sistema de ensino comparando-o a um banco, na qual a educação é um ato de depositar, de transmitir valores e conhecimentos e a realidade é narrada como se fosse estática, não existe um diálogo entre investigadores críticos (educadores-educandos).  Você acha que o nosso sistema de educação mudou significativamente nos últimos 40 anos, desde que este livro foi lançado?

Não apenas Paulo Freire, mas muitos filósofos, sociólogos, ecologistas, entre outros, têm refletido, discutido e nos alertado sobre como estamos fazendo as coisas imprudentemente. Nossa estaticidade diante de nossa realidade me faz lembrar de um poema:

 

(Trechos da Stairway Hieroglyphic, um poema por Drew Dellinger)

“São 3:23 da manhã e eu estou acordada …

porque meus tataranetos não me deixam dormir.

Meus tataranetos me perguntam em sonhos,

O que você fez enquanto o planeta foi saqueado?

O que você fez quando a Terra foi desmantelada?

certamente você fez alguma coisa? …

Quando as estações do ano começou a falhar?

certamente você fez alguma coisa?

Quando os mamíferos, répteis, pássaros começaram a desaparecer?

certamente você fez alguma coisa?

Você encheu as ruas com protestos quando a democracia foi roubada?

O que você fez uma vez você sabia?

 

 

O que estamos fazendo agora que NÓS SABEMOS? Parece que estamos presos neste sistema capitalista voraz e o nosso sistema escolar não é somente cúmplice como também vítima. Quando Paulo Freire, no segundo capítulo de seu livro, reflete sobre o que ele chama de “A concepção bancária da educação como forma de opressão”, isso me faz pensar no quanto esse tipo de educação mudou. Ela certamente mudou um pouco, mas infelizmente não com a velocidade e proporção necessária para impedir que nós “seres humanos” (seres que creem ser racionais) praticamente esgotássemos os recursos naturais da Terra, recursos de que precisamos para a nossa própria sobrevivência. Ele também me fez pensar que as pessoas que planejam o que deve ser depositado e transferido em termos de conteúdo aos educandos são os mesmos que não querem que estes alunos desenvolvam uma consciência crítica. Isso porque, de acordo com Freire, resultaria na intervenção dos alunos como agentes transformadores, eles se re-humanizariam, e é claro que isso prejudicaria os opressores, pois os oprimidos tomariam consciência de sua própria situação.  Este mesmo sistema tem perdurado por toda a história, basta refletir!

A maioria dos professores é bem-intencionada e não percebe que está servindo apenas para desumanizar, já que eles também fizeram parte deste sistema educacional opressor. Se pelo menos as pessoas entendessem que este tipo de educação está sendo alimentada pelo amor à morte e não pelo amor à vida… Pode parecer exagerada essa afirmação, mas quanto mais você se re-humaniza e, lentamente começa se conscientizar, fica mais claro que sim, nosso sistema educacional é infelizmente alimentado pelo amor à morte.

Você aprendeu na escola que os principais combustíveis no mundo estão fazendo com que o planeta aqueça causando um desequilíbrio em seu delicado sistema? Provavelmente você ouviu falar sobre isso na escola, mas você e seus colegas foram incentivados a criar e implementar uma solução “real” para esse  problema?  Ou você apenas pesquisou e escreveu algo em um papel e apresentou para a classe?

Em sua escola, foi discutido sobre o fato de que grande parte dos produtos que consumimos é produzida por pessoas que trabalham em condições similares a de escravidão? E eles são feitos com produtos que estão causando um ecocídio, ou seja, destruindo a nossa biodiversidade (fauna e flora)? Alguém te contou na escola que como consumidor você pode boicotar os produtos que não são condizentes com os seus valores?

Você sentia que todos eram respeitados no espaço escolar ou existia uma hierarquia a ser seguida? Como se sentiam os alunos que tinham um desempenho acadêmico ruim, de acordo com esse sistema educacional mórbido?

O nosso sistema de ensino é muito conveniente aos opressores cujos interesses se encontram em mudar a consciência dos oprimidos e não a situação que os oprimem (Freire, 1977). Será que o currículo escolar está capacitando seus aprendizes para enfrentar e mudar nossa realidade decadente? Você pode pensar que não é possível, no entanto os oprimidos são a grande maioria neste mundo, então isso deveria ser plausível e não utópico.  Infelizmente, na maioria dos países onde as pessoas têm acesso a qualquer tipo de marketing/publicidade, os indivíduos são diariamente seduzidos e sofrem um tipo de lavagem cerebral sobre o quanto você precisa ter para ser alguém. A maioria das pessoas que foi domesticada por essa educação opressora não se pergunta se eles realmente precisam do produto e como este foi produzido, pois estão cegas pelo ter.

O que nos faz humanos? Será que objetos nos fazem seres humanos? A maioria dos objetos que desenvolvemos não tem nos desumanizado? Eles não estão esgotando nossa única e linda casa “Terra”? Os conteúdos compartilhados/ensinados na escola são realmente relevantes para construir um mundo melhor? A escola nos liberta ou nos aprisiona no sistema?

Até quando esta educação formal desumanizadora vai prevalecer?

O que estamos fazendo agora que NÓS SABEMOS?

* Eu escrevi este post como uma maneira de compartilhar a minha luta diária em me re-humanizar. Quanto mais você estuda e procura por fatos, mais você descobre que viveu uma mentira e que informações vitais e relevantes foram omitidas durante sua trajetória escolar.  Meu marido e eu estamos tentando mudar tantas coisas em nossas vidas para sermos capazes de viver de uma forma mais respeitosa com o nosso lindo planeta, não tem sido fácil! Como por exemplo,  as marcas líderes que são desrespeitosas com a Terra estão em toda parte, deixando-nos com muita pouca escolha. Isso é humano ou é o capitalismo? O capitalismo é humano? A esperança é essencial para aqueles que acreditam que algo ainda pode ser feito. Minha vontade é ajudar os professores no Brasil, em sua formação inicial numa tentativa de re-humanizarmos a sala de aula . Uma bolsa de estudos me foi negada recentemente e minha decepção me levou a ler o livro de Paulo Freire e a escrever este post. Eu não posso perder minha esperança e eu não vou.

E lembrem-se existem muitos educadores humanistas ao redor do mundo, mas a devastadora maioria da população mundial é oprimida pelo sistema. Precisamos sim de uma revolução!

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