Essa reflexão é a primeira desde que iniciei e concluí o mestrado em ‘Development Education and Global Learning’, ou seja, a primeira em um ano. Posso afirmar que este mestrado do Institute of Education de Londres foi uma das melhores oportunidades que já tive para rever muitos dos conceitos que tinha construído,  e confesso que não foi fácil re-aprender sobre a realidade da qual faço parte. É desconcertante saber que frequentemente estamos reproduzindo e perpetuando o mesmo sistema de práticas que questionamos. Existem complexas estruturas de poder que mantêm/perpetuam as injustiças sociais das quais fazemos parte.  Normalmente as práticas escolares não expõem estas estruturas, muito menos as desafiam.

     Algumas pesquisas na área da educação apontam a pressão que educadores sofrem para cobrir as diretrizes de ‘conteúdos’ curriculares, sendo que seus alunos são avaliados a partir destas. Os exames nacionais e internacionais ranqueiam escolas e países a partir do domínio destes conteúdos.  Não tenho dúvida da contribuição das áreas das de ciências exatas, humanas, biológicas etc no aprimoramento do conhecimento para a promoção de uma vida mais sustentável. Como também não tenho dúvida que, infelizmente, de maneira geral, estes conhecimentos e conteúdos não estão sendo utilizados para essa finalidade e sim para perpetuação de complexas estruturas de poder, que, por sua vez, perpetuam a desigualdade e as injustiças sociais ao redor do mundo.  Minha afirmação se baseia no fato de que nas últimas décadas, segundo relatórios de instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU), o número de programas sociais, incluindo os de educação, cresceram, enquanto a concentração de riquezas, a desigualdade e os conflitos aumentaram.

    Pensando nisso, venho refletindo sobre o que é ‘ser humano’. A palavra humano, segundo algumas definições, carrega qualidades como a bondade, a compreensão, a tolerância, etc.  Tanto que seu antônimo ‘desumano’ tem uma conotação muito negativa. Nós nos intitulamos ‘seres humanos’ mas será que somos ‘seres bondosos’, ‘seres compreensivos’, ‘seres tolerantes’? Será que são essas as características que são desenvolvidas com prioridade em nossas vidas? Será que a escola, de acordo com seus conteúdos curriculares e avaliações, está focada em desenvolver  ‘seres humanos’? No Brasil, os parâmetros curriculares nacionais (PCNs) e a, ainda em desenvolvimento, base nacional comum curricular (BNCC) têm como princípios o desenvolvimento de características como respeito, solidariedade, afeto, criticidade e responsabilidade. Porém, se pensarmos na situação do Brasil e do mundo, tenho a impressão que este não tem sido o foco. Tenho me questionado se estamos desenvolvendo o ‘Ter’ ao invés do ‘Ser’. Ter domínio dos conteúdos; ter mais chances de cursar uma faculdade renomada; ter um ‘bom’ emprego; ter bens de consumo; ter ‘sucesso’; ter, ter e ter.

    O ‘ter’ é o que move nosso atual sistema econômico, que, por sua vez, influencia as agendas educacionais, políticas e sociais. Por exemplo, quanto mais pessoas tiverem emprego, mais chances elas terão de aumentar sua renda e se tornarem consumidores, impulsionando assim o tão importante crescimento  de nosso onipotente ‘sistema econômico’.  De acordo com a ONU muitas pessoas saíram da miséria extrema nas últimas décadas. No entanto, a desigualdade social e a concentração de riquezas aumentaram. Isso só faz sentido se a maioria da população estiver na verdade trabalhando não somente para aumentar sua renda, mas para contribuir com esse acúmulo de capital por uma minoria.  Esse vídeo ilustra de forma simples como a desigualdade está aumentando:

 

    Quando estive em Londres participei de um programa chamado Eco-Escolas e tive a oportunidade de visitar escolas que promoviam a sustentabilidade em suas rotinas e comunidades. Uma das áreas desse programa era a ‘cidadania global’. Percebi que é uma prática comum nas escolas londrinas a arredação de dinheiro para doação às populações carentes ao redor do mundo. Inspirada por esses programas e revoltada com o consumo exacerbado natalino, eu, por exemplo, em vez de dar presentes no natal, doei o equivalente aos presentes a projetos sociais no Brasil, Bangladesh e Moçambique. Porém, com o início do mestrado e a reflexão crítica sobre a realidade, percebi que minha atitude foi paternalista e que não mudaria a realidade das pessoas nestes países. Em nossa sociedade contemporânea só a pobreza é vista como um problema a ser erradicado e não a riqueza extrema, como se estes não estivessem intrinsecamente conectados. É uma complexa estrutura de poder que enfatiza os ‘teres-humanos’ como peças-chave para perpetuar esse sistema insustentável.

A escola e os professores, desde que empoderados e valorizados, podem contribuir para desafiar nosso insustentável modelo econômico.  Na verdade, somos todos educadores e se desejamos uma sociedade alicerçada em pilares de tolerância, generosidade, solidariedade e sustentabilidade é urgente o  resgate e priorização do ‘SER’ em vez do ‘ter’, pois este último é o que alimenta as estruturas de poder que degradam o planeta e as relações humanas. Vamos trabalhar e promover  o resgate do SER?