As nossas primeiras visitas foram a duas escolas com as quais o coletivo CEFA desenvolveu parcerias. As gestoras da Escola Municipal Professor Waldir Garcia e da EMEF Maria das Graças sempre tiveram uma inquietação em relação ao papel da educação. Essa inquietação, aliada ao Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA) e à parceria com a Secretaria de Educação, foram essenciais para dar início à transformação dessas escolas em direção à formação integral do aluno. Abaixo irei explicar brevemente sobre o CEFA e logo em seguida contarei como foi nossa vivência nesses locais.

 

Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA)

 

           Ficamos sabendo deste coletivo pelo Braz Nogueira, da EMEF Campos Salles de São Paulo. A Ana Bocchini, do CEFA, demonstrou-se disponível desde as primeiras trocas de informações e na manhã do nosso voo nos passou os contatos da Lúcia e da Ana Regina, gestoras das escolas em que o CEFA participa. Elas, por sua vez, responderam às nossas mensagens prontamente e logo combinamos as datas das visitas.

Sobre o CEFA: (texto retirado do site da instituição)

O Coletivo Escola Família Amazonas é um movimento da sociedade civil engajado na luta por uma educação pública de qualidade. Dois princípios norteiam nossas ações: a Gestão Democrática das escolas, porque sem envolvimento da sociedade a escola não vai mudar; a criação de Comunidades de Aprendizagem, porque o sistema educacional atual é ultrapassado, ineficiente e excludente, e educar é tarefa de toda a sociedade. O CEFA nasceu a partir da inquietação de pais e mães interessados em discutir modelos alternativos de educação. Depois de muitas reflexões, reuniões e discussões. Eles concluíram que têm a responsabilidade em transformar um pouco a realidade da cidade que vivem, pelo simples fato de que de nada adianta agirem exclusivamente pelos filhos deles”.  

               Não conhecemos ninguém do CEFA pessoalmente, mas como mencionei, contamos com todo o apoio da Ana Bocchini, que foi a ponte para as nossas visitas. Pela conversa que tivemos com as gestoras das escolas, percebemos que eles tiveram uma participação importante na transformação dos profissionais que trabalham nestas escolas. Por exemplo, as diretoras e uma educadora citaram visitas (que foram organizadas em parceria com o CEFA) que elas nomearam de “turismo pedagógico”, nas quais elas visitaram algumas escolas consideradas inovadoras em São Paulo. Nestas visitas, elas perceberam que um novo modelo de educação é possível, inclusive em escolas públicas. Além disso, o CEFA, articulado com a Secretaria de Educação de Manaus, organizou seminários com educadores renomados e inspiradores para contribuir com a formação de pais, professores, gestores, etc. Um dos objetivos do CEFA é que os pais se envolvam e se responsabilizem mais com as escolas e com o processo de educação de seus filhos. Ao final deste post, você encontrará links para saber mais sobre esse coletivo tão inspirador. A seguir compartilho nossas vivências em duas das escolas que eles atuam.

Mandala desenvolvida pela comunidade escolar, na qual o aluno é o centro do planejamento pedagógico!

Nossa visita ao Waldir Garcia

       Visitamos essa escola no dia 18/07/2017 e fomos muito bem recebidos pela gestora/diretora Lúcia Cristina Santos, que está na Escola Municipal Professor Waldir Garcia há 12 anos. Ela pediu que duas alunas nos apresentassem o local. Gabrielle e Edrya do 5º ano nos conduziram com entusiasmo e orgulho. Elas nos explicaram as mudanças que ocorreram no último ano, quando as crianças/alunos passaram a frequentar escola em período integral. Oficinas optativas no período da tarde já eram oferecidas por monitores antes dessa mudança.

             Lúcia nos contou que sempre foi inquieta e crítica em sua carreira e que já encontrou muitos problemas por ser questionadora. Quando assumiu a gestão do Waldir Garcia, o índice de evasão era muito elevado e muitos dos alunos ficavam nas ruas pedindo dinheiro. Hoje, o índice de abandono foi zerado e o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que, em 2009, era 3,5 passou para 7,4 em 2015.  Ela conta que esses índices são resultado de um trabalho que entendeu a situação de vulnerabilidade dos alunos, em que muitos deles conviviam com o tráfico de drogas e com o alcoolismo dos familiares.  Para Lúcia, a educação escolar foi um caminho para a transformação. Neste momento, eles começaram a oferecer oficinas à tarde para manter as crianças na escola. Ela também compartilhou que o conflito com a Secretaria da Educação já foi constante – inclusive, em 2015, houve uma tentativa de fechar a escola -, e que o secretário de educação da época chegou a exonera-la do cargo. Com o apoio dos pais, e por ser uma escola referência na inclusão de haitianos, além do visível aumento do Ideb, eles conseguiram reverter essa situação.

           Lúcia já passou por poucas e boas e tem muita história para contar. No entanto, irei relatar apenas o que mudou na escola, desde a parceria com o CEFA e desde que eles passaram a funcionar em tempo integral e com a formação integral do aluno.

  • As carteiras passaram a ser mesas redondas. Assim, os alunos começaram a sentar-se em grupos, em vez de ficarem enfileirados olhando para a nuca de seus colegas;
  • As assembleias foram introduzidas na rotina escolar e a pauta decidida pelos alunos. Inclusive, conversando com uma mãe de uma aluna, ela comentou que sua filha havia levantado uma questão em uma das assembleias;
  • Passaram a existir grupos de responsabilidade como: escovação, recreio bom, hábitos de higiene, descanso tranquilo, utilização da biblioteca, organização da horta, etc. Estes são formados por alunos e um adulto e têm como objetivo desenvolver o senso de responsabilidade pelo coletivo;
  • Os alunos começaram a se auto avaliar, sendo que essa auto avaliação é posteriormente discutida em grupo. Os itens inclusos nesta auto avaliação são: convivência social, pontualidade e capricho, responsabilidade, prática de leitura e escrita, matemática, ciências humanas e naturais e organização;
  • Tutoria, um dos itens que mais me encantei e literalmente me emocionei! Essa não é a tutoria de orientação acadêmica/de roteiro de estudos. É uma tutoria de escuta que acontece às sextas-feiras. Todos são encorajados a serem tutores, inclusive a merendeira, o ajudante de serviços gerais, etc. Casos de abuso sexual por familiares foram relatados durante a tutoria, aliás, pesquisas apontam que a maioria dos casos deste tipo de violência acontece dentro de casa. Lúcia também compartilhou outra história, desta vez feliz, que me deixou com os olhos marejados. Ela comentou que um dos alunos tinha dificuldades de ter afeto com o pai e que isso o incomodava muito, ele foi incentivado por seu tutor a escrever uma carta para ele descrevendo esse sentimento, um tempo depois o pai desse menino veio agradecer ao tutor pelo trabalho de escuta com o filho!;
  • Tutoria para os educadores: pessoas de fora se tornaram responsáveis por grupos de educadores. Essa tutoria tem uma função de formação. Ótima ideia, também nunca tinha ouvido falar!;
  • Projeto de vida do aluno: o aluno é incentivado a refletir e escrever sobre sua vida com perguntas norteadoras como: o que te deixa feliz? O que te deixa triste? O que mais gosta de fazer na escola? e O que menos gosta? Quais são suas qualidades? etc. Ele escreve seu projeto de vida em seu caderno para poder revisitá-lo;
  • Projeto de vida do professor: considera os campos espiritual, material, físico, intelectual, social, profissional e aspectos importantes no processo de desenvolvimento humano;
  • Fim dos sinais e filas. Eles substituíram o sinal por música. Quando os alunos o ouvem, eles sabem que o intervalo terminou. Eles não formam filas para retornarem para as salas;
  • Descentralização das decisões: Lúcia comentou que teve dificuldades, pois estava acostumada a tomar as decisões. No entanto, com a descentralização da gestão, ela afirma estar mais motivada e menos cansada. Ela afirmou que soluções que ela não era capaz de visualizar aparecem quando você encoraja e dá a oportunidade de fala aos outros;
  • Participação dos pais: os pais são incentivados a realizar trabalho voluntário na escola uma vez por semana. Durante minha visita, encontrei dois deles. Um que quebraria uma das paredes da escola para transformar o espaço em laboratório e outra que veio participar do desenvolvimento da horta.

        Esses são alguns dos aspectos que foram introduzidos no último ano na Waldir Garcia. Lúcia e outra educadora comentaram que um dos próximos passos será quebrar as paredes da escola.

Sydney, fazendo um bolo de milho!

       Além de conversar com a Lúcia, tive a oportunidade de assistir duas aulas. Uma de culinária multi-seriada,na qual a professora Vera fez um bolo de milho pensando em trabalhar medidas/sequência numérica com seu aluno Sydney, que tem autismo severo. Sentimos, pelo seu sorriso, que ele estava muito feliz fazendo o bolo. Participamos também de uma aula de teatro, na qual a educadora Kátia trabalhou pantomima com seus alunos. Segundo ela, o objetivo é a concentração das emoções. Os objetivos do teatro para ela são: trabalhar a timidez, os conflitos internos, o coletivo pelo trabalho com o outro/em grupo, etc. Nosso dia foi incrível, intenso e inspirador. Em seguida irei relatar nossas impressões sobre a visita a outra escola que também está participando deste processo de transformação.

Nossa visita à escola Maria das Graças

Espaço da escola EMEF Maria das Graças, de mais duas escolas e da ONG Aldeias Infantil SOS.

 

 

 

 

 

A segunda escola que visitamos fica no local da ONG chamada Aldeia SOS. Existem mais duas escolas além da Maria das Graças neste lugar. A Ana Regina, gestora/diretora nos recebeu muito bem. Ela nos explicou que a escola existe neste local há 1 ano. Antigamente, localizava-se em outro distrito, em Manaus, mas foi desativada.

           A escola Maria das Graças atende crianças do primeiro ao terceiro ano. Ana Regina comentou que no início, em julho de 2016, as crianças não foram matriculadas prontamente, pois os pais estavam ‘desconfiados’ desse novo método de escola municipal em tempo integral. Então, acreditem se quiserem, alguns integrantes dessa comunidade escolar foram panfletar e até usaram carro de som para atrair os alunos. E foi assim que conseguiram alguns educandos, em torno de 50, que precisaram ser transferidos de suas escolas para a EMEF Maria das Graças. Esta, inicialmente, contou com duas turmas de primeiro ano e uma de segundo ano. Os pais ajudaram a organizar a estrutura da escola, que era uma casa. Já no início de 2017, o número de alunos aumentou consideravelmente, pois algumas turmas migraram para a Maria das Graças.
Ana Regina compartilhou conosco o fato de que alguns pais preferiram tirar seus filhos de lá, pois tiveram dificuldades em entender um método em que as crianças ficavam mais livres, que não sentavam em carteiras um atrás do outro copiando, e outros tiveram dificuldades com a alimentação. Ela disse que muitas vezes o fator que influencia – infelizmente – a tomada de decisão dos pais de retirar ou não o filho da escola é o tempo/formato tradicional e não a formação integral do aluno. Aliás, há uma confusão entre formação e tempo integral.
Um fator que me chamou a atenção é que algumas crianças da ONG Aldeia SOS estão matriculadas nesta escola. Estas crianças, por alguma razão, foram afastadas temporariamente de seus pais e moram lá, em uma das casas da ONG. Elas têm apoio psicológico/social e pedagógico, além de outros direitos básicos garantidos como: alimentação, educação, saúde, lazer e o direito à convivência familiar e comunitária. A escola Maria das Graças tem uma rotina escolar similar à Waldir Garcia. Por exemplo, as mesas para sentar em grupos, tutoria, auto avaliação, etc. No entanto, as realidades são divergentes, pois a gestora e todo o corpo docente estão nesta escola há apenas um ano, muitos somente há seis meses. As casas da Aldeia SOS, onde está localizada a escola, estão sendo adaptadas para receber as crianças e refletir a formação integral do aluno. É um trabalho contínuo.

Reflexões finais e aprendizados

 

         Enfim, para nós fica claro a importância de gestores disponíveis, competentes e que queiram descentralizar as decisões. Outro fator essencial são as parcerias entre poder público, escola e pais na luta por uma escola pública de qualidade. A oportunidade de vivenciar outras realidades educacionais, a troca de saberes, parece ser uma maneira inspiradora e confortante de saber que é possível fazer diferente. A vontade contribuir com uma nova educação exige disponibilidade, energia e desconstrução de conceitos enraizados.

         Gostaria de terminar esse texto agradecendo à Ana Regina e à Lúcia por terem aberto as portas das escolas e por disponibilizarem seu tempo para compartilhar suas caminhadas tão inspiradoras. Obrigada! E não poderia deixar de agradecer à Ana Bocchini, do CEFA, por se disponibilizar desde o início em me ajudar com informações. O coletivo me inspira muito!

Links:

CEFA – Coletivo Escola Família Amazonas

Conheci o CEFA virtualmente e visitei as escolas acima em que alguns dos pais deste coletivo matricularam seus filhos.

Eu recomendo que visitem o site deles http://www.cefa.net.br/ e a página no Facebook https://pt-br.facebook.com/coletivoescolafamilia15/ .

Assistam também ao documentário “O que eles têm para nos dizer?” produzido pelo coletivo Reconsidere.

          O CEFA me inspirou, pois acredito que temos o direito de ter uma educação pública de qualidade. Eles desenvolveram uma parceria com os educadores (professores e gestores) das escolas citadas, e com a Secretaria de Educação para lutar por esse direito.  Imaginem se todos que reclamassem da educação, especialmente os pais, contribuíssem para que essa realidade fosse transformada?

Outros links: 

www.aldeiasinfantis.org.br/ 

https://www.facebook.com/Escola-Municipal-Prof-Waldir-Garcia-177683762378655/