Felizmente algumas pessoas de Manaus nos indicaram a Fundação Almerinda Malaquias (FAM). Jean-Daniel, um de seus fundadores, disponibilizou a manhã para nos explicar sobre a história de sua vida até fundar esta instituição. Ele é franco-suíço e marceneiro, profissão que ama muito. Um dia ele foi para o Gabão, na África, ajudar na construção de um hospital e de sua movelaria. O fato de estar em um hospital tornou o envolvimento com as pessoas mais forte do que simplesmente o trabalho. Jean nos contou que vivenciou de corpo e alma aquele momento e disse ser uma pessoa privilegiada por isso. Esta experiência despertou nele uma relação diferente com o mundo.  De volta à Suíça, procurou por vários anos um projeto pequeno para se dedicar na África, mas não se identificou com nenhum. Em seu país, trabalhou como marceneiro para uma empresa, para depois abrir a sua própria. Um dia, ouviu um anúncio no rádio de um etnólogo suíço que estava à procura de parceiros para ir a uma expedição à Guiana Francesa.  Jean nos contou que passou seis semanas em mais de uma comunidade indígena e considerou as aldeias um sistema social perfeito.  “Fiquei encantado!”, ele disse. Um ano depois, o mesmo etnólogo o convidou para participar do festival Boi-Bumba, em Paritins. No barco, conheceu a Marta, que falava francês.  O etnólogo contou que o pai dela “Seu Miguel”, tinha um projeto social na cidade de Novo Airão, pois toda a área tinha se transformado em reservas, parques nacionais ou áreas de preservação e a população ficou sem alternativas de geração de renda consideradas ‘legais’. Pessoalmente, mais tarde, Seu Miguel contou que pensava em aproveitar os resíduos de madeira da construção naval, que eram de primeira qualidade, para fazer móveis/artesanato e capacitar a população para ter outra profissão. Pronto! Jean-Daniel havia achado um projeto com o qual ele se identificava e queria investir. Voltou para Suíça e vendeu sua marcenaria para poder voltar a Novo Airão, onde iria estudar e fazer planejamentos para esse novo empreendimento social. Antes de sua partida, ainda na Suíça, ele criou uma ONG para apoiá-lo.  Em 1997, a FAM foi fundada, sendo que um de seus propósitos é a busca por soluções econômicas e sociais para a população local. O nome da fundação homenageou os pais de Miguel, “Almerinda” e “Malaquias”.

 

Desde o início, o desejo da FAM era desenvolver a autonomia das pessoas que eram formadas para serem artesãos. As matérias-primas, como mencionado no parágrafo anterior, são os resíduos de madeira da época da construção naval e são de primeira qualidade. Porém, Miguel e Jean-Daniel perceberam que havia uma defasagem em matemática e contabilidade, impossibilitando que esta autonomia fosse atingida. Pensando nisto, eles decidiram criar um programa de formação completo, ou seja, um curso de marcenaria que incluísse habilidades como contabilidade. Com resultados positivos, eles conquistaram o mercado local e nacional.  Hoje, quase mil pessoas se formaram neste programa e os artesanatos produzidos por artesãos fixos da FAM ganharam prêmios nacionais.

Mesmo com essa formação oferecida pela FAM, o desemprego continua sendo um problema em Novo Airão. Duas consequências graves dessa situação são o trabalho ilegal com a extração de madeira e o tráfico de animais. Preocupado com a postura dos moradores da cidade em relação ao meio ambiente, em 2005, a fundação decidiu criar um programa de educação ambiental no contraturno para as crianças da cidade, com a finalidade de instigar o cuidado com o meio ambiente desde os anos iniciais do ensino fundamental. A idade das crianças e adolescentes varia entre 7 e 14 anos. Eles são divididos em três turmas de manhã e três à tarde. Um dos objetivos é que as crianças sejam multiplicadoras dentro de suas próprias famílias. Todo o conteúdo é baseado em suas realidades. Hoje a fundação tem cerca de 120 alunos, que frequentam o programa de segunda a quinta-feira, sendo às sextas-feiras dedicadas ao planejamento e à formação pedagógica. Eles têm uma parceria com a Secretaria de Educação para ajudar com a remuneração dos educadores, que trabalham em tempo integral.

No período da tarde, estava sozinha, pois o Gustavo estava se dedicando a uma troca de serviços que fizemos (acomodação-website). Tive a oportunidade de vivenciar brevemente esse programa com as três turmas.  A Claudia, coordenadora, contou que eles desenvolvem vários projetos e que, no momento, estavam trabalhando em um cantinho para o cultivo de plantas medicinais. Ela me levou a uma das salas, na qual estava o grupo das crianças mais novas, de 7 a 9 anos. Entrei e, em roda, eles cantaram uma música de boas-vindas para mim. A professora então continuou com sua programação perguntando se alguém havia trazido alguma planta considerada medicinal de sua casa.  Um dos alunos se levantou e foi buscar um ramo de ‘Salva de Marajó’.  A educadora cuidadosamente pediu para que cada um deles sentisse o cheiro/aroma da planta. Logo em seguida perguntou se alguém sabia quais eram as suas propriedades medicinais e um dos alunos respondeu: “para dor de barriga e estômago”. Outros dois alunos e as professoras trouxeram amostras de plantas. Os educandos puderam sentir o cheiro de todas elas e compartilhar seus conhecimentos sobre seus usos. Dentre elas estavam: caatinga de mulata, capim-santo, arruda, mucura cae, etc. A ideia é replantá-las na própria fundação, no cantinho citado acima. Lembrei que uma das pessoas que mais me inspira no mundo é a eco-ativista Vandana Shiva. Ela enfatiza a importância de resgatarmos e preservarmos os conhecimentos de nossas avós. Por isso, fiquei muito contente durante essa vivência.  Senti que é isso que estavam fazendo, é importante que as crianças tenham esse tipo de conhecimento que é relevante para a vida. Lembrando que a indústria farmacêutica é bilionária e quer que consumamos mais remédios, por esta razão concordo com Vandana Shiva que o resgate da sabedoria de nossos ancestrais é uma forma de resistência que precisamos fomentar.

Na sala ao lado, com educandos na faixa etária entre 12 e 14 anos, a educadora estava falando sobre a pimenta do reino.  Ela perguntava aos alunos que tipo e como consumiam e indagou se eles achavam que ela tinha alguma propriedade medicinal. Um deles contou que seu avô colocava em um tipo de doce. Observei nos murais da sala que assuntos como transgênicos são abordados, e também como lidar com o problema dos cachorros de rua que reviram os lixos em Novo Airão.  Na terceira sala, com alunos entre 10 e 11 anos, tive pouquíssimo tempo, eles estavam revisando sobre assuntos que tinham abordado no último mês e essa revisão estava sendo feita por meio de arte com sucata. As crianças estavam espalhadas livremente, agrupadas ou não, na construção de sua arte. Em duas das salas, música clássica (em volume baixo) tocava durante as atividades.

Ekobé

Após esses momentos com os educandos e educadores, Jean-Daniel me levou para conhecer a Ekobé, que, segundo ele, significa vida em uma língua indígena. A Ekobé é uma propriedade que a FAM adquiriu com 32 hectares de floresta, localizada a uns 6 km de distância da sede. Um de seus objetivos secundários é a locação para grupos/formações/eventos para poder ajudar a FAM com sua sustentabilidade financeira.  Eles têm alojamento, cozinha, auditório, redário, tudo desenhado e construído com a ajuda dos conhecimentos de marcenaria de Jean-Daniel. Seu objetivo é que as crianças e adolescentes passem boa parte do tempo nesse local, aprendendo e se conectando com a floresta.  Seja fazendo ou trabalhando na manutenção da trilha educativa, seja na horta orgânica, seja fazendo arte com a matéria orgânica do local. No entanto, eles ainda não têm transporte suficiente para o deslocamento dos alunos. Vale a pena mencionar que Jean-Daniel é tão apaixonado por este lugar que me levou para fazer uma parte da trilha, me contando histórias, mostrando as espécies, e também falando sobre o problema do desmatamento e do assoreamento, triste realidade local. Nos esquecemos do tempo!

 Formação de professores locais

Um projeto que está para iniciar, pois teve seu orçamento aprovado, é a formação de educadores das escolas locais de Novo Airão. Serão 22 cursos, durante 3 anos, na área de educação ambiental. Quarenta professores – um terço dos professores da cidade – terão a oportunidade de participar dessas capacitações e ganharão uma bolsa como forma de incentivo.  Um dos objetivos deste programa é que os educadores contemplados sejam multiplicadores em seus ambientes de trabalho. Cada curso terá 16 horas. De acordo com Jean, os ministrantes dos cursos são renomados em suas áreas de conhecimento no Brasil.

Considerações finais

Jean-Daniel é claramente envolvido com o que faz. Observamos e conversamos com marceneiros/artesãos que trabalham lá há mais de 17 anos. Seus trabalhos são obras de arte sustentáveis. A FAM, em um momento, quase fechou por falta de verbas, portanto, não é somente um trabalho social, mas uma luta incessante. Esta instituição não se preocupa somente com a formação completa dos artesãos, mas também com a conscientização ambiental das crianças locais sobre suas realidades e a importância de vivermos sustentavelmente. Para nós, do Projeto re-Conhecendo o Brasil, uma das maneiras de uma escola inovar, é resistir aos momentos que te fazem querer desistir da luta por justiça socioambiental, que não são poucos!  Parabéns a essa instituição que, com seu trabalho, transforma a realidade de uma cidade que, segundo muitos locais, é esquecida pelas autoridades.

Links:

A FAM já ganhou prêmio de artesanato alguma vezes.

Página deles no Facebook: https://tinyurl.com/ycj3xp8s

Site da fundação: http://fundacaoalmerindamalaquias.org/

Instagram: fundacaoalmerindamalaquias