Chegar na comunidade de Tumbira, no interior do Amazonas, além de ser um aprendizado é a certeza de uma memória inesquecível para a vida. Por isso, precisamos compartilhar com vocês. Combinamos com a professora Vera, moradora do local, de ficar em sua casa e vivenciar sua rotina. Ela nos enviou uma mensagem pelo whatsapp: “O barco ‘Meu Zanys’ sai às 20h de Novo Airão e chega no flutuante perto da comunidade às 24h. Tenho alguém para buscá-los! ”. Agora peço que imaginem… pegar um barco à noite (desses que penduramos a rede para dormir), ser deixados à meia noite em um flutuante no Rio Negro, e torcer para ter alguém nos esperando. Foi bem difícil de imaginar como seria essa experiência. Separamos a lanterna e nossa barraca e, apesar de preparados, estávamos ansiosos. No final, adoramos o barco e amamos a viagem noturna pelo Rio Negro. Ela aconteceu sob milhões de estrelas. Nunca vimos tantas estrelas cadentes nas nossas vidas… também vimos algo incrível, um meteorito cruzando o céu, como uma bola de fogo que se apagou! Pois é isso mesmo. Depois confirmamos que isso é comum por aqui, o “fogo fato”.

     À meia noite do dia 31/08 desatamos nossas redes e nos preparamos para entrar num barquinho menor que acompanha o barco maior de redes. Ele serve para levar as pessoas aos flutuantes das comunidades. ISSO TUDO ACONTECEU COM OS DOIS BARCOS EM MOVIMENTO! A comunicação entre os barqueiros, por toda a extensão que percorremos no Rio Negro, aconteceu por meio de lanternas. No breu, é muito fácil visualizar luzes piscantes. Eros, neto da professora Vera, estava nos esperando no flutuante do Recreio.

Este foi o local em que em torno das 00h encontramos o Eros.

Flutuante Recreio

 

     Lá entramos em outro barco, que por aqui chamam de rabeta (procure no Google). Por uns 10 minutos percorremos o trajeto flutuante-casa da professora Vera sob um céu TÃO estrelado que parecia que estávamos no espaço, nos emocionamos! … e vimos mais estrelas cadentes! Foi assim que chegamos a Tumbira…NUNCA iremos esquecer! A professora Vera nos aguardava, nos apresentamos, mas logo fomos dormir. No dia seguinte, ela já havia saído mas havia deixado o café da manhã pronto (veja foto). A vista da casa dela é algo especial.

 

     Quando ela chegou explicamos sobre nosso projeto e combinamos a rotina de visita às escolas. Ela nos contou que duas de suas irmãs também são professoras na comunidade. Nós fizemos todas as refeições na casa dela, o que nos fez vivenciar de maneira mais próxima seu dia a dia. A nossa primeira vivência foi no 3º ano do Ensino Médio, onde ela é professora. Leia o relato a seguir.

Centro de Mídias

     A metodologia de ensino na Escola Thomas Love Joy na comunidade de Tumbira é diferenciada. Lá, eles utilizam o Centro de Mídias, que diariamente transmite aulas ao vivo diretamente de Manaus para diversas comunidades do estado do Amazonas. Uma colega já havia nos contado sobre esse modelo de aulas, mas não tínhamos ideia de como funcionava. Todas as salas com essa metodologia possuem um kit tecnológico, que inclui um computador, impressora, webcam, microfone, telefonia IP e um televisor LCD de 42”. Além disso, a escola possui uma antena e conexão com a internet.

     A aula ‘virtual e ao vivo’ começa pontualmente às 19h, mas o material com o conteúdo é disponibilizado 30 minutos antes. Pelo que entendemos e acompanhamos, as professoras e/ou alunos chegam mais cedo para baixar esse material que é dividido por módulos de acordo com as áreas do conhecimento. Existe um professor responsável na sala física para mediar esse processo. No 3º ano do Ensino Médio é a professora Vera Garrido, que nos recebeu tão bem em sua casa.

     A aula começa às 19h com o hino do estado do Amazonas, seguido por uma revisão dos tópicos que foram abordados previamente. O professor, que está em Manaus, inicia a exposição dos assuntos de forma bem conteudista. Percebemos, porém, que há uma valorização da cultura do estado com a menção de escritores/artistas/história locais. Existem períodos de interação, no qual o professor pede para os alunos resolverem exercícios. Eles têm 15 minutos para isso. A professora que acompanha esse grupo nos explicou que cada grupo compartilha suas respostas com as turmas das outras comunidades. Existe a opção de ´levantar a mão virtualmente´!

      O professor de Manaus volta à cena, explica novamente o exercício proposto e pede para que os grupos que ´levantaram a mão’ participem. Neste momento, a câmera liga e podemos ver e ouvir outras turmas, foi muito bacana! Muitas vezes a internet não permite essa interação pois ‘congela’ a imagem. A primeira aula é finalizada com um resumo. O processo de revisão das aulas passadas, apresentação do novo tópico, exercício, interação e revisão, acontece duas vezes na noite e os alunos têm um intervalo para a merenda por volta das 20h15.

      Essa aula nos fez refletir muito sobre o que é inovação e nos fez pensar que esse modelo de aula permitiu a muitos alunos de comunidades ribeirinhas terem acesso a direitos de aprendizagem que nós de zonas urbanas tomamos como certo. Vários dos adolescentes chegam de barco a Tumbira. Aliás, segundo o Centro de Mídias, a Secretaria de Educação do Amazonas – SEDUC/AM constatou que muitos desses jovens não concluíam seus estudos por falta de acesso a locais que oferecem o direito à educação. O Centro de Mídias explica: As características geográficas, a topografia peculiar das diferentes localidades, os meios de transporte disponíveis aos moradores das comunidades com população rarefeita e o fornecimento irregular da energia elétrica eram obstáculos a serem vencidos. Além disso, há o caso da falta profissionais habilitados em quantidade suficiente para atender o crescimento da oferta educacional. A Unesco vem alertando para a falta de professores em nível mundial. Essa realidade se agrava nas regiões de difícil acesso do nosso país, como é caso do Estado do Amazonas, que tem 18,45% do território nacional e uma logística diferenciada.”  https://tinyurl.com/y77e3qyl 

    A professora Vera nos contou que às vezes faz atividades extra-curriculares para engajar os alunos com outros tipos de saberes, principalmente sobre a realidade local e a sustentabilidade.

 

Repórteres da Floresta

      Na aula do Centro de Mídias conhecemos a Odenilze, que participa do Repórteres da Floresta, “um projeto idealizado pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), em parceria com Bradesco, Samsung e Fundo Amazônia/BNDES. O objetivo é capacitar jovens repórteres, para que eles retratem a realidade ribeirinha através de diferentes mídias de comunicação. A missão da FAS é promover o desenvolvimento sustentável, a conservação ambiental e a melhoria da qualidade de vida das comunidades ribeirinhas do estado do Amazonas.”         https://faz-amazonas.org)

Veja o depoimento de Odenilze sobre como tem sido participar do projeto Repórteres da Floresta .

       Além disso, os jovens que participam deste projeto desenvolvem outras ações. Vivenciamos uma delas, na qual eles foram conversar com as crianças dos anos iniciais do ensino fundamental sobre sustentabilidade. Foi muito inspirador assistir a este momento de troca de saberes e muito inspirador escutar o efeito que esse projeto teve na vida da Odenilze.

 

Escolas Multiseriadas

 

Tivemos a oportunidade de vivenciar uma manhã na Escola Municipal de Tumbira. A professora Izolena nos recebeu de braços abertos. Ela nos apresentou e as crianças cantaram uma canção de boas vindas para nós. Ouça…

 

“e não importa se você veio do sul ou do norte a casa é sua meu irmão pode ficar”. E não somos todos irmãos? Achei lindo! É como temos nos sentindo desde que chegamos, parte da família, de tão bem acolhidos.

      A escola tem uma sala multiseriada que vai da Educação Infantil aos anos iniciais do Ensino Fundamental, ou seja, até o 5º ano. A professora explicou que não há recursos humanos ou infraestrutura para ser de outra maneira e que desta forma os alunos acabam aprendendo uns com os outros. Ela pediu para nos apresentarmos falando sobre São Paulo. Eles ficaram tristes ao saber que em nosso rio já não podíamos mais nadar.

      Os alunos fizeram muitas perguntas, principalmente se conhecíamos as frutas de lá.  Como não tínhamos ouvido falar de muitas, eles nos levaram para conhecer a comunidade e nos mostraram as árvores frutíferas do local, as casas de alguns deles e a casa de farinha. Lá eles nos explicaram o processo de produção da farinha e da goma. Também nos mostraram a casa de artesanato e falaram sobre alguns dos animais que são típicos daquela região. Foi uma delícia, e ainda acabamos levando ingá e caju conosco.

     Vale a pena mencionar que enquanto as crianças comiam a merenda reforçada com feijão, a professora Izolena, que é presidente da comunidade e faz parte de um conselho da Reserva de Desenvolvimento Sutentável (RDS) do Rio Negro – onde está inserida Tumbira, nos mostrou vários mapas com dados sobre a localização das famílias e também do desmatamento que tem avançado significativamente nos últimos anos.  Algumas crianças acompanharam essa explicação, demonstrando familiaridade com os mapas. A professora confirmou que trabalha estes com seus alunos e, além disso, trabalha bastante o conceito de sustentabilidade. Aliás, vimos um trabalho que explicava sobre a pesca sustentável. Este foi feito pelas crianças, lembrando que na escola eles não têm acesso a recursos como computador e/ou internet. Então, esse conhecimento é construído a partir das pesquisas que a professora faz, do conhecimento dela e dos pais dos alunos que, em sua maioria, são pescadores.

     Outra realidade que tivemos o privilégio de vivenciar foi acompanhar a manhã da professora Maria, que todos os dias sai em torno das 6h de sua casa, e, em sua rabeta,  vai até a escola onde leciona para 12 alunos. No meio do caminho, na casa do aluno Gabriel, encontramos o barqueiro responsável pelo transporte escolar, seu Epitácio. Assim seguimos, por aproximadamente 30 minutos, buscando os alunos em suas casas na beira do rio. Assista um pequeno vídeo que fizemos para ilustrar essa realidade.

 

    A rotina é bem similar à da outra escola, mas alguns alunos são de comunidades do entorno. A escola também é multiseriada. A professora Maria nos contou que trabalha o mesmo tema de diversas maneiras. Os alunos se sentam em agrupamentos. O tema do dia foi transportes, e em uma das atividades eles tiveram que desenhar o meio de transporte que mais utilizam. Todos desenharam barcos, com um realismo que provavelmente as crianças que utilizam ônibus e carro não alcançariam. Neste momento, o seu Epitácio entrou, começou a ver o desenho das crianças e a fazer comentários sobre eles. Foi interessante, pois como Tião Rocha diz: “para educar uma criança, é necessária toda uma aldeia”, e foi isso que vivenciamos.

     Seu Epitácio nos contou que voltou a estudar aos 55 anos de idade. A necessidade surgiu porque ele não conseguia fazer anotações durante as reuniões do trabalho e corria o risco de ficar desempregado. Ele também compartilhou conosco que ganha somente R$1.100 reais por mês para fazer o transporte das crianças de março a novembro (período letivo), porém, com esse dinheiro ele precisa colocar a gasolina e fazer a manutenção do barco, sendo que ele não recebe no período de férias. Sobra pouco para sustentar a família! As crianças nesta escola também merendam. Conversei com a merendeira Ozana, ela nos contou que o governo envia a comida de 20 em 20 dias e que este ano está muito boa. No dia de nossa vivência as crianças comeram uma carne de panela picadinha com arroz e farinha. Muitos dos alunos repetiram. Às 11h a aula se encerrou e nós fizemos o trajeto de volta para casa, desta vez utilizamos sombrinhas para nós proteger do sol.  Desta maneira concluímos nossas vivências nas escolas de Tumbira e na comunidade do Inglês.

 

Considerações Finais

      Foi em Tumbira que entendemos que nada sabemos sobre a realidade brasileira. Ler e assistir documentários é muito diferente de vivenciar. Esse tipo de experiência/vivência profunda transforma a nossa alma. Desde lá, estamos refletindo muito sobre essas discussões de educação alternativa e/ou inovadoras e nossa arrogância em definir/ditar modelos ideais. Saímos de lá admirados e inspirados com as boas intenções e a força de vontade dessas professoras que realmente querem proporcionar às crianças da região o direito à educação. No discurso delas percebemos que existe uma reflexão sobre suas práticas pedagógicas e descobrimos que o José Pacheco já esteve lá. Terminamos a vivência em Tumbira com mais questionamentos do que quando chegamos e com a certeza que TODOS devemos lutar por uma educação pública de qualidade, pois só assim podemos esperar e alcançar a justiça socioambiental.

    Gostaria de finalizar agradecendo especialmente à professora Vera que nos recebeu tão bem e a seu neto Eros, que aos 17 anos já tem bastante experiência de vida. Obrigada também às professoras Izolena, Maria e à aluna Odenilze. Levaremos Tumbira em nossos corações!

 

    ps: antes de sair da cidade de Novo Airão, conhecemos um voluntário espanhol que disse que tinha um presente de despedida para nós. Ele me deu o livro “A volta ao mundo em 13 escolas”, o qual temos a versão digital. Quando cheguei em Tumbira, tive certeza que ganhei esse livro para poder repassar para as professoras dessa comunidade. O universo é perfeito, basta estarmos atentos aos seus recados.

 

Contato da professora Vera para quem quiser vivenciar o dia a dia em Tumbira: (92) 9231-1805 . Ela oferece acomodação e refeições também! O Eros pode levar vocês para fazer trilhas e conhecer o entorno da comunidade! Eu recomendo essa vivência, é um aprendizado para a vida!